Monday, October 02, 2006

 

Nosso Projeto

Oba!!!!estamos muito felizes, pois com a ajuda da prof Cris, conseguimos montar o nosso projeto em forma de slides pra apresentarmos para os nosso colegas....

Comments:
Olá, Colegas! Recebi essa msg e lembrei de vcs.

Saúde Mental



Por Rubem Alves


Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me
convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para
pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu
ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh,
Wittgenstein,
Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei.


Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava
mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica.
Maiakoviski suicidou-se. Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental?


Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre
iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o
corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine
(se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito rigosa... Não, saúde mental elas não tinham.

Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os
protótipos da saúde mental.


Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes
psicológicos a
que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa . Por
outro
lado,
nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam
sempre

fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e
certezas.



Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por
isso
apresso-me aos devidos esclarecimentos.


Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos
computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes.
Uma
delas chama-se hardware, literalmente equipamento "duro", e a outra
denomina-se
software, " equipamento macio". O hardware é constituído por todas as
coisas
sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por
entidades "

espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos
discos....


Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do
cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O
software
é
constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória.
Do
mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos,
entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o
programa
mais
importante é a linguagem.



Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos
no
software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se
chamar
psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e
bisturis
consertar o que se estragou.


Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não
funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o
software
é
feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele.

Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos.
Por
isso,
quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de
recursos
físicos
para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas,
humoristas,
palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicólogos e
psicanalistas.



Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma
peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo,é
sensível às
coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco?

Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o
corpo fica excitado.
Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios,
o
hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se
comover .

Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e
se
arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas
que
citei no
princípio: a música que saia de seu software era tão bonita que seu
hardware
não
suportou.


Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de
oferecer
uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental
até
o fim
dos seus dias.


Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A
beleza é

perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são
especialmente contra indicados.



Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta
literatura
especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair
Ribeiro,
por que
se arriscar a ler Saramago?



Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles
publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes,
fica

garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais.


E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.



Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas
como
você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é.
E,
em vez de
ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará
para,
então,
realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal
momento, você
já terá se esquecido de como eles eram.
[[]]
 
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